domingo, 15 de agosto de 2010

É fato


Existem dias em que tudo parece estar naquele abismo profundo, envelhecedor. Dias em que no final você pensa que a melhor coisa que fez foi acordar, e num prazo de segundos, repensa e encherga que a melhor hora mesmo é a hora de se deitar, onde por mais que não seja profundo, o sono consegue passar uma borracha e fazer com que os problemas sejam esquecidos em no mínimo 8 horas. Nesses dias, o psicológico faz suas próprias reclamações, quieto, sozinho, sem deixar o cérebro mandar um comando sequer saído de nossa própria vóz, implorando um pedido de ajuda. Reclamamos da comida, do lar, das pessoas, das coisas, da vida. Reclamamos de tudo. E, por mais que ouça vózes dizendo frases de auto ajuda como "Olhe para trás", "Você tem tudo", ainda sim ouvimos por um ouvido e soltamos pelo outro. Isso quando a ira não aparece e faz com que nossas palavras se tornem ásperas com as pessoas que só tentam abrir nossos olhos. Isso é péssimo. Creio que isso faz parte de todo ser humano, dos mais diversificados tipos e idade.
Porém, uma hora passa. Tudo passa. Tempo ao tempo.
Ontem, 14 de agosto, por volta das 19:50, pus me dentro de um hospital acompanhada pela minha mãe, solicitei uma consulta e em prazo de minutos ouvi a vóz da secretária dizendo "Só aguardar". Então, naquele frio que parecia cortar minha pele fina, procurei um lugar para sentar, e, graças a Deus, haviam muitos, exceto um, que ocupado por uma criança indefesa me chamou muito a atenção. Com um rosto bonito, sorriu ao me ver sentar ao seu lado. Aparentava ter seus 6 anos sofridos, pele escura esbranquiçada pelo vento que aquele frio trazia. Em seus pequenos e achatados pés, cujas unhas estavam pintadas com esmalte descascado rosa, um chinelo amarelo que estava preto, parecendo estar duro, congelado. Me dava mais frio ainda olhar para aquela cena. Uma pequena bermuda que fazia parte do uniforme escolar e uma blusa de moleton curta, ambos muito sujos. No cabelo embaraçado dava pra enchergar um pequeno elástico cor de rosa, digno de menina, de menina vaidosa que, pelo pouco que tinha, ainda sentia vontade de se mostrar feminina. Mas depois de um olhar humilde que cruzou com o meu, não me contive mais. Chorei.
A dor no meu pulso esquerdo que parecia não ter fim sumiu naquele momento. E, dando lugar a um rio de lágrimas próximo a estourar, apenas abaixei minha cabeça e permiti que elas saíssem. Achei que não fosse mais parar de chorar. Peito apertado, coração numa dor antes não sentida com tanto sofrimento, com tanta culpa. Culpa por não poder abracar o mundo com os braços.
Foi quando levantei minha cabeça, e ao ver as lágrimas no meu rosto, minha mãe, também afogada com a cena, saiu em direção ao carro à procura de ajuda. Mas era tarde demais. Por evitar olhar do lado, a perdi de vista. Aquela criança que tomou-me as lágrimas já não estava mais ali, tinha saído, sumido, desaparecido.
Então, o abismo que eu tanto descrevi lá em cima, tornou-se banal.

Um comentário:

  1. Pois é, às vezes temos tudo para sermos felizes e mesmo assim não o somos, esquecemos que existem pessoas em condições muito piores que as nossas.

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